A violência também pode acontecer através das telas. Saiba como identificar sinais, proteger os estudantes e preparar a comunidade escolar para lidar com o cyberbullying.
A transformação digital na educação trouxe novas possibilidades, mas também novos desafios. Entre eles está o cyberbullying na escola, uma forma de violência que acontece no ambiente digital e pode afetar a convivência, a saúde mental e o desempenho dos estudantes.
Entender o que é cyberbullying e reconhecer a diferença entre bullying e cyberbullying é um passo importante para que a gestão escolar consiga identificar situações de agressão e agir de forma adequada.
Para entender as consequências dessa forma de violência, identificar seus sinais e descobrir como prevenir e combater esse problema, continue a leitura.
O que é cyberbullying?
Dizer que o cyberbullying é uma “versão digital” do bullying tradicional é uma simplificação que pode ajudar a começar a entender a questão. Mas, para realmente lidar com ela, é essencial ir mais fundo.
Diferença entre bullying e cyberbullying
O bullying é uma forma de agressão recorrente, que envolve violências físicas, verbais e psicológicas, muitas vezes ao mesmo tempo, em um ambiente específico — muitas vezes na escola.
O cyberbullying é uma extensão dessa violência, mas praticada no ambiente virtual. Ele ocorre por meio de e-mails, aplicativos de mensagens, fóruns e, principalmente, redes sociais.
As principais diferenças entre bullying e cyberbullying estão no ambiente em que ocorrem e no alcance da agressão:
- Ambiente: o bullying acontece principalmente em espaços presenciais; o cyberbullying ocorre em ambientes digitais.
- Alcance: a agressão virtual pode ultrapassar os limites da escola e chegar à casa do estudante.
- Exposição: conteúdos ofensivos podem ser compartilhados rapidamente e alcançar muitas pessoas.
- Continuidade: no ambiente digital, a vítima pode continuar exposta à agressão mesmo fora do horário escolar.
- Relação entre as violências: bullying e cyberbullying podem acontecer simultaneamente e potencializar os impactos sobre a vítima.
O tema também tem diferentes contornos legais. A Lei nº 14.811/2024 passou a prever o bullying e o cyberbullying no Código Penal, estabelecendo consequências para a prática de intimidação sistemática.
Para completar, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), instituído pela Lei nº 15.211/2025, ampliou a proteção de crianças e adolescentes nos ambientes digitais, incluindo medidas relacionadas à segurança, privacidade, saúde, educação digital e prevenção de violências on-line.
O cyberbullying no Brasil hoje
Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024) mostram que o cyberbullying faz parte da realidade de uma parcela significativa dos adolescentes brasileiros. A pesquisa aponta que 12,7% relataram ter sofrido bullying nas redes sociais, enquanto 10% afirmaram já ter praticado esse tipo de violência.
O levantamento também mostra diferenças importantes entre os grupos analisados. As meninas são mais afetadas como vítimas, enquanto os meninos aparecem com maior frequência entre os que admitem praticar bullying virtual. A ocorrência também varia entre regiões e redes de ensino.

Entre as regiões, a diferença entre meninas e meninos também chama atenção. No Norte, 18,6% das meninas relataram ter sofrido cyberbullying. Já no Sul, a diferença entre os gêneros foi a maior: 14,7% entre meninas e 8,4% entre meninos.
Quando o foco passa para a prática do cyberbullying, a Região Norte também aparece com o maior percentual, com 11,5%. Sudeste (10,3%) e Centro-Oeste (10,1%) ficaram próximos da média nacional, enquanto Sul (9,8%) e Nordeste (9%) registraram os menores percentuais.
Os números mostram que o cyberbullying na escola não se limita a um único perfil de estudante ou realidade regional. A prevenção precisa considerar as diferentes formas de violência digital e envolver toda a comunidade escolar.
Consequências do cyberbullying para os alunos
O grande problema do bullying, para suas vítimas, é que ele parece inescapável. Afinal, durante o período escolar, a criança ou adolescente tem na escola sua principal experiência social. Quando esse espaço se torna inóspito, o aluno pode sentir-se inadequado e “condenado” a ser excluído do convívio com os demais.
Nesse sentido, o cyberbullying merece uma atenção especial. Há quem considere que essa agressão digital é menos impactante, pois não envolve a violência física. No entanto, ela pode ser ainda pior porque as vítimas não têm para onde fugir.
Enquanto o aluno pode “desligar-se” da agressão do bullying tradicional enquanto está em casa, quando essa violência ocorre de forma digital, ela o persegue onde quer que esteja, já que só precisa estar conectado à internet.
🔎 Leia mais: Violência na escola: combate, prevenção e segurança
Impactos psicológicos do cyberbullying
O cyberbullying pode afetar a saúde mental e intensificar sentimentos como medo, insegurança, vergonha e isolamento. A exposição pública e a rápida circulação de conteúdos também podem ampliar a sensação de perda de controle sobre a situação.
A PeNSE 2024 ajuda a dimensionar o cenário de saúde mental entre adolescentes: 28,9% relataram sentir tristeza na maioria das vezes ou sempre, e 49,7% disseram sentir preocupação com situações comuns do dia a dia com a mesma frequência.
Esses dados não estabelecem uma relação direta entre cyberbullying e sofrimento psicológico, mas reforçam a importância de a escola acompanhar a saúde mental e as relações entre os estudantes.
🔎 Leia mais: Saúde mental na escola: como identificar problemas e cuidar de seus alunos.
Como o cyberbullying afeta o rendimento escolar
O cyberbullying também pode prejudicar a aprendizagem. Dificuldade de concentração, faltas, queda nas notas, recusa de ir à escola e afastamento dos colegas são sinais que merecem atenção da equipe pedagógica.
Observar essas mudanças ajuda a gestão a identificar situações de violência e oferecer apoio ao estudante. Afinal, o cyberbullying na escola afeta não apenas a vítima, mas também o agressor, os colegas e o ambiente escolar.
Mesmo quando a agressão acontece fora da escola, suas consequências podem chegar à sala de aula e comprometer a convivência e o rendimento. Cabe à gestão escolar acompanhar esses sinais, fortalecer o diálogo com as famílias e agir para garantir um ambiente seguro aos estudantes.
Como identificar essa prática em sua escola?
O primeiro passo para combater o cyberbullying é identificar essa prática. Os dois principais caminhos para fazer isso são:
Monitoramento das redes sociais e aplicativos
Como o cyberbullying na escola acontece em ambientes digitais, acompanhar esses espaços pode ajudar a identificar situações de violência. Porém, a escola não consegue monitorar todas as interações, especialmente aquelas realizadas em ambientes privados.
Por isso, o monitoramento deve ser complementar à observação dos estudantes. Redes sociais institucionais e aplicativos de comunicação escolar podem ser acompanhados, sempre respeitando os limites de privacidade.
Desde 2025, esse acompanhamento acontece em um contexto de novas regras para o uso de dispositivos eletrônicos. A Lei nº 15.100/2025 restringe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais por estudantes da educação básica durante aulas, recreios e intervalos, com exceções previstas na legislação.
A restrição reduz o uso desses dispositivos no ambiente escolar, mas não elimina o cyberbullying. A agressão pode ocorrer fora da escola e continuar repercutindo entre os alunos.
O uso de inteligência artificial acrescenta outro desafio. Ferramentas de IA podem facilitar a criação e manipulação de imagens, áudios, vídeos e textos usados para constranger ou expor estudantes. Orientar sobre privacidade, segurança e uso responsável da tecnologia também deve fazer parte da prevenção.
🔎 Leia mais: Como usar a inteligência artificial na educação de maneira responsável.
Observação dos sinais de violência entre os estudantes
O bullying tem consequências muito sérias na saúde mental e até física de uma criança ou adolescente. Isso deixa sinais que permitem à gestão escolar identificar o problema.
Um aluno que sofre bullying pode apresentar os seguintes “sintomas”:
- Excesso de faltas e recusa de ir à escola
- Queda no desempenho nas disciplinas
- Dores de cabeça frequentes
- Muito sono durante as aulas
- Febre e tremores
- Tendência de se isolar dos colegas
- Mudanças de comportamento
- Timidez repentina
As conversas dos alunos também podem dar sinais importantes. Por isso, a observação é o principal caminho para identificar casos de agressão e violência na escola.
Como prevenir e combater o cyberbullying?
Como vimos, o cyberbullying é um problema complexo, que pode ser muito difícil de lidar. No entanto, é responsabilidade da escola criar um ambiente mais inclusivo, saudável e seguro para seus alunos.
Algumas boas práticas que sua instituição pode tomar para alcançar esse objetivo são:
Treinar sua equipe para a prevenção e a ação
O combate ao bullying e ao cyberbullying deve envolver toda a equipe escolar. Capacitações, reuniões e troca de experiências ajudam os profissionais a reconhecer sinais, prevenir situações de violência e agir de forma adequada.
Aumentar o engajamento das famílias com a escola
Pais e responsáveis acompanham os estudantes fora da escola e podem perceber mudanças de comportamento que passam despercebidas pela equipe pedagógica.
Manter uma comunicação próxima com as famílias facilita a identificação de casos de cyberbullying e a definição de estratégias para proteger e orientar todos os envolvidos.
Conscientizar a comunidade escolar
A conscientização deve fazer parte da rotina da escola e pode ser incorporada ao projeto político-pedagógico (PPP). Palestras, rodas de conversa e atividades com os estudantes ajudam a discutir violência, respeito e segurança digital.
Temas como uso de celulares, inteligência artificial, privacidade e exposição nas redes também podem entrar nessas conversas, especialmente diante das novas regras para dispositivos eletrônicos nas escolas.
Estimular a criação de uma escola diversa e inclusiva
A valorização da diversidade ajuda a combater comportamentos discriminatórios que podem dar origem ao bullying e ao cyberbullying.
Criar um ambiente inclusivo também contribui para discutir padrões de comportamento, aparência e exposição que afetam crianças e adolescentes no ambiente digital.